IMPACTOS DAS AÇÕES ANTRÓPICAS NO COMPORTAMENTO REPRODUTIVO DOS PEIXES: UMA ANÁLISE A PARTIR DO ETNOCONHECIMENTO DOS PESCADORES LOCAIS NO RIO TOCANTINS
Palavras-chave:
Desova de peixes, ecossistemas aquáticos, alterações hidrológicas, conhecimento ecológico tradicional, sustentabilidade pesqueiraResumo
O rio Tocantins constitui um importante sistema hidrográfico brasileiro, essencial para a manutenção da biodiversidade e para a subsistência de populações ribeirinhas. Este estudo teve como objetivo analisar os impactos das ações antrópicas sobre o comportamento reprodutivo dos peixes, com base em uma revisão de literatura e na valorização do etnoconhecimento de pescadores locais. A reprodução dos peixes, especialmente durante o período de piracema, depende de condições ambientais específicas, como regime hidrológico, disponibilidade de alimento e integridade dos habitats aquáticos. Nesse contexto, fatores como secas prolongadas, poluição da água e desmatamento das matas ciliares têm promovido alterações significativas nesses ambientes. As secas, intensificadas por mudanças climáticas e pela construção de usinas hidrelétricas, reduzem o nível dos rios e dificultam a migração reprodutiva. A poluição, sobretudo por metais pesados e microplásticos, compromete processos fisiológicos, incluindo a regulação endócrina e a qualidade dos gametas. Já o desmatamento das matas ciliares contribui para o assoreamento dos corpos hídricos e a perda de áreas fundamentais para abrigo, alimentação e reprodução das espécies. Além disso, o etnoconhecimento dos pescadores revela-se uma ferramenta relevante para a compreensão das mudanças ambientais, fornecendo informações complementares aos dados científicos. Por isso, os impactos antrópicos tendem a intensificar a redução dos estoques pesqueiros, comprometendo o equilíbrio ecológico e a segurança alimentar das comunidades locais, evidenciando a necessidade de estratégias integradas de conservação e manejo sustentável.
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